Barragem da Lagoa do Nado: 20 meses, uma sindicância e agora um edital de R$ 18,3 milhões
A barragem do Parque Lagoa do Nado rompeu em novembro de 2024 por falha humana. A obra definitiva só foi licitada agora. Veja a linha do tempo.
Quem passa pela Região Norte de Belo Horizonte e olha para dentro do Parque Municipal Fazenda Lagoa do Nado vê uma coisa estranha desde novembro de 2024: uma lagoa sem lagoa. O leito vazio virou paisagem cotidiana do bairro, e o entorno segue fechado ao público mesmo com o restante do parque funcionando.
No sábado (1º), a Prefeitura de Belo Horizonte publicou no Diário Oficial o edital da licitação para reconstruir a barragem que se rompeu. O valor é de R$ 18,3 milhões, divididos entre cerca de R$ 3,8 milhões para os projetos e R$ 14,6 milhões para a obra propriamente dita.
É uma boa notícia com uma nota de rodapé grande: entre o rompimento e o edital passaram quase 21 meses. E, pelo próprio cronograma da licitação, ainda vai passar bastante tempo até que a água volte.
O que o edital prevê
A contratação segue o modelo em que a mesma empresa elabora o projeto e executa os serviços. O escopo não se resume a refazer o que caiu:
- nova barragem em gabião, estrutura formada por pedras contidas em telas metálicas;
- uma ponte ligando as duas margens, com uso previsto para pedestres e veículos;
- reurbanização da área afetada pelo rompimento;
- recuperação ambiental da lagoa, que ficou vazia.
A escolha do gabião não é detalhe técnico irrelevante para quem mora ao redor. É uma solução drenante e flexível, que trabalha melhor com variação de vazão do que uma estrutura rígida — o tipo de decisão que faz sentido depois de um rompimento associado a evento de chuva intensa.
O cronograma real, sem otimismo
Aqui vale ler as datas com atenção, porque a distância entre "licitação publicada" e "obra pronta" costuma ser mal comunicada.
As propostas serão abertas em 29 de outubro deste ano. Depois disso, ainda é preciso julgar os preços, habilitar a empresa vencedora e assinar o contrato. Só então a prefeitura autoriza o início dos serviços — e é a partir dessa autorização que começa a contar o prazo de 540 dias para concluir os trabalhos.
Ou seja: não há data exata prevista para a entrega. Somando abertura de propostas, trâmite de julgamento, contratação e os 540 dias de execução, a conta realista aponta para uma conclusão em 2028, na hipótese de nada atrasar.
E atraso, nesta obra especificamente, tem histórico.
A linha do tempo
13 de novembro de 2024 — A barragem cede durante um forte temporal. O reservatório esvazia por completo. A água chega à Avenida Dom Pedro I, que fica interditada por algumas horas. Não houve feridos. Equipes da prefeitura recolheram peixes e cágados que viviam no lago.
Novembro de 2024 — O então secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Leandro César Pereira, atribui a queda ao "volume exacerbado de chuva".
Dezembro de 2024 — O parque é reaberto parcialmente, com prioridade para as áreas de lazer e esporte: playground, academia ao ar livre, quadras e pista de skate. O entorno da lagoa permanece fechado.
13 de março de 2025 — Uma sindicância muda a explicação oficial. A conclusão é que o rompimento foi causado por falha humana, e não por problema estrutural.
Primeiro semestre de 2025 — A prefeitura executa ações emergenciais de contenção. A obra definitiva, porém, começa a acumular adiamentos. Ainda em março de 2025, a Secretaria de Obras previa contratar os serviços no segundo semestre daquele ano.
Maio de 2026 — A prefeitura afirma que o edital sairia em junho.
1º de agosto de 2026 — O edital é finalmente publicado.
A parte mais desconfortável: os stop logs
O detalhe técnico apurado pela sindicância merece ser explicado, porque muda completamente a natureza do episódio.
Segundo a Secretaria de Obras, a saída de água da barragem estava parcialmente bloqueada por três peças de madeira chamadas stop logs. Esses dispositivos funcionam como comportas manuais empilháveis: são colocados ou retirados para regular o nível do reservatório.
Eles haviam sido retirados durante as chuvas justamente para baixar o nível da água — procedimento correto. O problema foi o passo seguinte: foram recolocados de forma indevida depois. Com a saída obstruída e a chuva forte, a estrutura não deu conta.
A distinção importa. Uma barragem que rompe por evento climático extremo é uma história sobre limites de engenharia diante do clima. Uma barragem que rompe porque uma peça de madeira foi recolocada errada é uma história sobre procedimento operacional e manutenção — e essa é uma falha que se corrige com protocolo, treinamento e fiscalização, não com R$ 18,3 milhões de obra nova.
O edital reconstrói a estrutura. Não há informação pública, até agora, sobre o que mudou na rotina de operação dos reservatórios urbanos da capital para que o mesmo tipo de erro não se repita em outro parque.
O silêncio sobre os atrasos
O g1 questionou a Prefeitura sobre os motivos dos sucessivos adiamentos, mas não obteve retorno.
É uma pergunta legítima e sem resposta há mais de um ano. Entre a previsão de contratar no segundo semestre de 2025 e a publicação em agosto de 2026 há doze meses de diferença, período em que a comunidade do entorno conviveu com um parque pela metade, sem explicação formal.
O que está em jogo além da engenharia
O Parque Fazenda Lagoa do Nado não é um equipamento público qualquer da capital. A área fazia parte, até a década de 1960, da Fazenda Engenho Córrego do Nado, propriedade da família do ex-prefeito de BH Américo Renné Giannetti. Com a ocupação dos bairros do entorno, a chamada "Fazendinha Janete" passou a ser usada informalmente para recreação e lazer.
O parque só existe porque houve mobilização da comunidade local nos anos 1980 — moradores que decidiram que aquele pedaço de terra deveria ser preservado como área verde em vez de virar loteamento. A inauguração oficial veio em 1994.
Quando se trata de um espaço com essa origem, a lagoa vazia não é só um problema de paisagismo. É a interrupção de algo que a vizinhança construiu, e cuja conclusão agora depende de um cronograma que ninguém consegue prever com precisão.
O edital publicado é o primeiro passo real desde as contenções emergenciais. A pergunta que fica, para os próximos dois anos, é se este cronograma vai ser cumprido melhor do que os anteriores.