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Minas colhe a maior safra de café da história — e o Brasil perde o comprador que tinha desde 2009

Minas colhe 33,4 milhões de sacas em 2026, recorde histórico, enquanto a Alemanha tira dos EUA o posto de maior comprador do café brasileiro. Entenda.

RRRedação Rei de Minas18 de julho de 2026 · 7 min de leitura
Minas colhe a maior safra de café da história — e o Brasil perde o comprador que tinha desde 2009

Minas Gerais está colhendo em 2026 a maior safra de café já registrada no estado. No mesmo ciclo, o Brasil viu os Estados Unidos deixarem o posto de maior comprador do produto pela primeira vez em 16 anos. Os dois fatos saíram de levantamentos diferentes, com quase dois meses de distância entre um e outro, e contam a mesma história: o café mineiro nunca teve tanto volume disponível justamente no momento em que o mercado que o absorvia se reorganizou.

O desencontro explica por que produtor do Sul de Minas e do Triângulo terminam julho com armazém cheio e humor azedo.

Uma safra que não cabe no ano anterior

O segundo levantamento da safra de café da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 21 de maio, estimou a produção brasileira de 2026 em 66,7 milhões de sacas de 60 quilos — alta de 18% sobre o ciclo anterior. Seria o maior volume da série histórica da estatal, superando em 5,74% o recorde de 2020, quando o país colheu 63,08 milhões de sacas.

Minas Gerais responde por metade disso. A Conab projetou 33,4 milhões de sacas no estado, avanço de 29,8% em um ano. Não é um crescimento distribuído por igual: o Cerrado Mineiro, que reúne Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste — região cujas chapadas também sustentam roteiros de ecoturismo —, deve saltar 60,2%, para 7,6 milhões de sacas. O Sul de Minas e o Centro-Oeste, maior bloco produtor, ficam com 15,2 milhões de sacas, alta de 26,4%. Zona da Mata, Rio Doce e Central somam 9,4 milhões (+18%), e Norte, Jequitinhonha e Mucuri fecham com 1,057 milhão (+19,9%).

A explicação técnica tem dois pés. O primeiro é a bienalidade positiva, o ritmo natural do cafeeiro, que alterna um ano de carga cheia com outro de descanso. O segundo é o clima: houve chuva bem distribuída antes da florada e condições favoráveis até março, período decisivo para o enchimento dos grãos. Segundo Fabiano Vasconcellos, gerente de Acompanhamento de Safras da Conab, foi essa combinação que sustentou o desempenho.

No arábica — o tipo que Minas produz — a projeção nacional é de 45,8 milhões de sacas, 28% acima do ciclo passado. O conilon, concentrado no Espírito Santo e em Rondônia, praticamente empatou com o ano anterior, com 20,9 milhões de sacas.

No campo, o quadro batia com a previsão. Em meados de junho, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) informava colheita entre 10% e 15% da área e 57% dos frutos avaliados no estágio cereja, o ponto ideal para a colheita. A cooperativa projetou 2,859 milhões de sacas de arábica em sua área de atuação, que tem 82.020 hectares plantados e 72.327 hectares em produção — quase 40% a mais de volume que no ciclo anterior.

O freguês de 16 anos que saiu da frente da fila

Em 15 de julho, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) fechou a contabilidade do ano-safra 2025/26, que vai de julho a junho. O Brasil embarcou 38,462 milhões de sacas para 125 países, queda de 15,7% na comparação com 2024/25.

O dado que mudou o mapa do setor, porém, não foi o volume total. Foi o ranking de destinos. A Alemanha assumiu a liderança com 5,188 milhões de sacas, 13,5% de tudo que o Brasil exportou — e isso mesmo tendo reduzido as próprias compras em 20,6%. Os Estados Unidos caíram para segundo lugar, com 4,243 milhões de sacas, 43,2% menos que no ciclo anterior. Era a primeira vez desde a safra 2009/10 que os americanos não lideravam.

A causa é rastreável a um intervalo curto. Márcio Ferreira, presidente do conselho diretor do Cecafé, atribuiu o tombo à tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos aos cafés brasileiros. Entre 6 de agosto e 21 de novembro de 2025, os embarques para o mercado americano recuaram 54,9%, passando de 2,917 milhões para 1,315 milhão de sacas. Quatro meses bastaram para desfazer uma liderança de mais de uma década. O comércio se reacomodou: parte do café que iria para portos americanos foi para a Europa, e a Alemanha, que já é o maior reexportador e torrefador do continente, ficou com a diferença.

O curioso é que a receita quase não sentiu. O faturamento das exportações caiu apenas 1%, para US$ 14,595 bilhões — segundo melhor resultado da série histórica, atrás só de 2024/25. O preço médio ficou em US$ 379,48 por saca. Vendeu-se muito menos café por quase o mesmo dinheiro, porque a cotação internacional esteve alta de setembro de 2025 a janeiro de 2026.

Junho, último mês do ano-safra, já mostrou a virada de fase: 3,060 milhões de sacas embarcadas, alta de 16,9%, mas receita de US$ 972,8 milhões, 6% menor. Mais volume, menos dinheiro. É o retrato da safra nova chegando.

A conta que já apareceu na balança mineira

O efeito no estado é mensurável. Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) compilados pelo Diário do Comércio mostram que as exportações do agronegócio mineiro somaram US$ 7,33 bilhões entre janeiro e maio de 2026, queda de 12,8% sobre igual período de 2025. O volume caiu 7,4%, para 6,5 milhões de toneladas. Minas manteve 10,3% do agro exportado pelo Brasil e a terceira posição nacional.

O café puxou o recuo praticamente sozinho. A receita do produto caiu 21%, para US$ 3,8 bilhões, com volume 26,4% menor — 541,5 mil toneladas. O preço médio por tonelada subiu 7,3%, para US$ 7.062,51, mas não compensou a perda de quantidade. Como o café responde por 52,1% de tudo que o agro mineiro manda para fora, qualquer tropeço na commodity aparece inteiro na estatística estadual.

Os demais setores seguraram o que deu. A soja rendeu US$ 1,6 bilhão, alta de 3,7% em receita, apesar de volume 3,3% menor. As carnes cresceram 10,8%, para US$ 753,8 milhões, com a bovina avançando 12%. Já o complexo sucroalcooleiro despencou 30,6%, para US$ 351,3 milhões, e os produtos florestais recuaram 4,4%.

China (US$ 1,9 bilhão), Estados Unidos (US$ 659,9 milhões), Alemanha (US$ 634,1 milhões), Itália (US$ 502,9 milhões) e Japão (US$ 328 milhões) concentraram 54,6% das vendas externas do agro mineiro.

Por que o produtor não está comemorando

Safra grande e preço alto raramente convivem. O Indicador do Café Arábica Cepea/Esalq fechou o dia 16 de julho em torno de R$ 1.738 por saca de 60 quilos, em recuo, pressionado pelo avanço da colheita brasileira e pela perspectiva de oferta abundante. Quem segurou café esperando repetir as cotações do fim de 2025 assiste ao mercado andar na direção contrária.

Há ainda um travamento adicional. Produtores e compradores internacionais estão distantes na negociação — o preço pedido não encontra o preço ofertado, e os negócios de exportação demoram a fechar. É uma disputa clássica de ano de safra cheia: o vendedor lembra do preço do ano passado, o comprador olha o estoque que vem chegando.

O que observar até o fim do ano

Três pontos definem o segundo semestre para Minas. O primeiro é o ritmo de retomada das compras americanas, agora que o café verde voltou a entrar nos Estados Unidos em condições mais favoráveis — em janeiro, os embarques de arábica para lá já haviam reagido. O segundo é a capacidade de armazenagem: safra recorde exige espaço, e o café guardado sem estrutura adequada perde qualidade e valor. O terceiro é a Europa, que virou o centro de gravidade das exportações brasileiras e agora dita mais do ritmo do que ditava dois anos atrás.

Para o produtor mineiro, a matemática do ano é simples e desconfortável: colher mais nunca garantiu faturar mais. Em 2026, essas duas contas andaram em direções opostas.

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