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Receita recorde com a mina parada: o paradoxo da Sigma Lithium no Vale do Jequitinhonha

Sigma teve receita recorde de US$ 55 milhões no 2T26 e margem EBITDA de 47%, mas está com a mina suspensa desde 17 de julho. Entenda o que está em jogo.

RRRedação Rei de Minas17 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Receita recorde com a mina parada: o paradoxo da Sigma Lithium no Vale do Jequitinhonha

Um balanço trimestral raramente carrega uma contradição tão explícita. A Sigma Lithium, que opera no Vale do Jequitinhonha, apresentou no segundo trimestre de 2026 a maior receita da sua história e a melhor margem operacional já registrada pela companhia. No mesmo documento, informou que a mineração e o processamento estão suspensos desde 17 de julho.

Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo, e entender como isso é possível diz bastante sobre o momento do lítio em Minas Gerais.

Os números do trimestre

Do lado financeiro, o desempenho foi consistente:

  • Receita de US$ 55 milhões, recorde da companhia
  • Prejuízo líquido de US$ 2,64 milhões, uma redução expressiva frente aos períodos anteriores
  • Margem bruta de 60%
  • Margem EBITDA de 47%, também recorde histórico
  • Dívida líquida de US$ 125 milhões
  • Caixa de US$ 17 milhões

Do lado operacional, os números explicam o resultado:

  • Produção de 35,4 mil toneladas de concentrado no trimestre, crescimento de cerca de 50% sobre o primeiro trimestre
  • Vendas de 24,4 mil toneladas
  • Preço realizado de US$ 2.089 por tonelada, alta de 17%
  • Custo na saída da planta de US$ 401 por tonelada, queda de 36%
  • Custo CIF de US$ 452 por tonelada, queda de 33%
  • Custo AISC de US$ 668 por tonelada

No acumulado do semestre, a produção chegou a 58 mil toneladas. E como a companhia havia registrado lucro líquido de US$ 11,1 milhões no primeiro trimestre, a conta dos seis meses fecha positiva em cerca de US$ 8,5 milhões.

Por que preço e custo importam mais que o volume

O detalhe mais relevante do balanço não é o recorde de receita. É a tesoura que se abriu entre duas linhas.

O preço realizado subiu 17%, para US$ 2.089 a tonelada. O custo na saída da planta caiu 36%, para US$ 401. Quando a receita por tonelada sobe e o custo por tonelada cai ao mesmo tempo, a margem se expande sozinha, e foi isso que levou a margem EBITDA a 47%.

Esse movimento importa porque o lítio viveu, nos últimos anos, uma montanha-russa de preços. Projetos que nasceram na euforia do pico foram engolidos quando a cotação despencou. Operar com custo na casa dos US$ 400 por tonelada é o que separa quem atravessa um ciclo ruim de quem sai dele.

Há, porém, um sinal de tensão no balanço: dívida líquida de US$ 125 milhões contra caixa de US$ 17 milhões. É uma posição que exige geração de receita contínua. E aí entra o outro lado da história.

A mina parada desde 17 de julho

Segundo o relatório da companhia, as atividades de mineração e processamento estão suspensas desde 17 de julho, durante negociações de um Termo de Ajuste de Conduta com o governo mineiro.

Esse é o ponto que o mercado vai observar nos próximos meses, e por uma razão de calendário: um trimestre encerrado em 30 de junho captura apenas duas semanas do período de suspensão. O resultado seguinte, não.

O TAC é um instrumento jurídico usado para ajustar a conduta de uma empresa a exigências do poder público, normalmente ambientais ou regulatórias, sem que se chegue a um processo judicial. Os termos específicos da negociação em curso não foram detalhados no material divulgado, e nem a companhia nem o governo estadual apresentaram, até aqui, um cronograma público de retomada.

Enquanto isso, a Sigma segue vendendo. Produção acumulada em estoque permite honrar embarques por algum tempo mesmo com a lavra parada. Mas estoque acaba.

O que está em jogo para o Vale do Jequitinhonha

Aqui a conversa deixa de ser sobre planilha.

A operação da companhia está em Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha, região historicamente associada aos piores indicadores sociais de Minas Gerais. O projeto Grota do Cirilo transformou dois municípios que dependiam de agricultura de subsistência e de remessas de trabalhadores migrantes num polo de mineração com relevância internacional.

Isso trouxe emprego direto e indireto, movimentação em comércio e serviços locais, e arrecadação municipal via CFEM, a compensação financeira pela exploração mineral, que é distribuída entre União, estado e municípios produtores.

É exatamente por isso que uma suspensão prolongada não é um problema apenas do acionista. Em economia de município pequeno, a mineradora costuma ser o maior empregador formal, e a receita mineral entra no orçamento como linha que sustenta serviço público. Quando a lavra para, a folha de pagamento e a arrecadação sentem antes do balanço trimestral.

Há também o outro lado da equação, que a região conhece bem. Minas Gerais convive com um histórico de mineração que deixou passivos ambientais e sociais pesados, e a exigência regulatória mais firme é resposta direta a essa memória. A discussão em torno de um TAC não é burocracia: é a tentativa de fixar, em documento, o que a empresa precisa cumprir para operar.

O que observar daqui para frente

Três indicadores dizem para onde a história vai:

A conclusão do TAC. Quando e em que termos a negociação com o governo de Minas se encerra, e o que ela exige da companhia.

A data de retomada da lavra. É o item que separa uma interrupção administrativa de uma parada com efeito real sobre produção e caixa.

O preço do lítio. A margem confortável do trimestre depende de o preço realizado se manter perto dos US$ 2.089 por tonelada. Numa reversão de cotação, o mesmo custo de US$ 401 conta uma história bem menos animadora.

O Vale do Jequitinhonha passou décadas sendo lembrado nas estatísticas de pobreza de Minas. Virou, em poucos anos, um nome citado em relatórios de cadeia global de baterias. O que acontece entre o TAC e a retomada vai dizer se essa mudança tem raiz ou se foi mais um ciclo.

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