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34,7°C em pleno inverno: BH viveu o agosto mais quente em 65 anos e a semana não deu trégua

BH marcou 34,7°C no domingo, a maior temperatura para um agosto em 65 anos, com umidade de 20%. O calor de inverno cobra a conta na capital.

RRRedação Rei de Minas11 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
34,7°C em pleno inverno: BH viveu o agosto mais quente em 65 anos e a semana não deu trégua

Belo Horizonte marcou 34,7°C no domingo (9), com umidade relativa do ar caindo a 20% às 13h. É a maior temperatura registrada na capital para um mês de agosto nos últimos 65 anos.

Não foi um pico isolado. No sábado (8), o termômetro chegou a 33,4°C, com umidade mínima de 23%. Na segunda (10), 34,5°C. Os três dias formaram um bloco de calor que, num calendário normal, pertenceria a outubro.

E aqui está o dado que reorganiza a leitura de tudo: o segundo e o terceiro dias mais quentes de 2026 em BH caíram no inverno. O recorde do ano segue sendo 1º de janeiro, com 34,8°C — uma diferença de um décimo de grau para um domingo de agosto.

Um décimo de grau separa o verão do inverno

Vale pesar essa frase. Entre o dia mais quente do ano — o primeiro dia de janeiro, no auge do verão — e um domingo do meio de agosto, no auge do inverno, houve 0,1°C de diferença.

Em uma cidade cercada de serra, com relevo em anfiteatro e um histórico de julhos e agostos com noites frescas, isso é uma anomalia que não se explica só por "está fazendo calor". É a estação seca chegando com temperatura de estação chuvosa, sem a chuva que normalmente a acompanha.

O resultado é a pior combinação possível para uma capital: calor de verão, ar de deserto.

Umidade de 20% é assunto de saúde, não de desconforto

O Inmet emitiu alerta de baixa umidade classificado como de perigo potencial, com umidade relativa variando entre 20% e 30%.

Para dimensionar: a Organização Mundial da Saúde considera 60% um patamar de conforto. Abaixo de 30%, entra-se em faixa de atenção. Abaixo de 20%, o ambiente se aproxima do que se mede em regiões desérticas.

O que 20% de umidade faz numa cidade de 2,3 milhões de habitantes é bastante concreto: ressecamento das vias respiratórias, sangramento nasal, irritação nos olhos, agravamento de asma e rinite, desidratação mais rápida em quem trabalha na rua. Não é sensação térmica — é carga sobre pronto-socorro.

As recomendações padrão de Inmet e Defesa Civil nesses episódios são as de sempre, e continuam valendo: hidratação frequente ao longo do dia, evitar exercício físico ao ar livre entre 10h e 16h, umidificar ambientes fechados e redobrar atenção com crianças pequenas e idosos.

O fogo veio junto — como sempre vem

Calor alto, vegetação seca e umidade em 20% formam uma equação previsível. E ela apareceu na segunda-feira em três frentes diferentes na Grande BH.

Um incêndio atingiu o Parque Nacional da Serra do Gandarela, unidade de conservação federal na região metropolitana — justamente a área que protege parte dos aquíferos que abastecem a capital. Outro se espalhou por um terreno abandonado na Vila Sumaré, chegando a ameaçar casas. E o Ministério Público anunciou que vai acionar a Justiça para que a operadora responsável por um prédio abandonado que pegou fogo em BH adote providências.

O padrão se repete todo ano e diz algo sobre a cidade: em estiagem severa, o imóvel abandonado, o lote vago e o terreno sem manutenção deixam de ser um problema estético e viram risco físico para a vizinhança. Fiscalização de lote vago é política de prevenção de incêndio — só não costuma ser tratada assim.

O que vem pela frente

A previsão para o restante de agosto mantém o cenário: temperaturas altas e tempo seco na capital e na região metropolitana. Não há, no horizonte próximo, o sistema frontal que normalmente quebraria a sequência.

Isso significa que a conta continua correndo em três frentes ao mesmo tempo:

Saúde. A demanda respiratória em unidades de urgência cresce em episódios prolongados de baixa umidade, e o efeito é cumulativo — o quinto dia seco pesa mais que o primeiro.

Água. Estiagem longa com calor acima da média aumenta o consumo e a evaporação nos reservatórios ao mesmo tempo. É a combinação que aperta o abastecimento no fim da seca, não no começo.

Fogo. Enquanto a umidade não subir, cada terreno com mato alto na cidade e cada trecho de vegetação seca nas serras do entorno seguem como material combustível esperando ignição.

Não é só a capital

O episódio ficou visível em BH porque é lá que estão a estação meteorológica mais citada e as redações — mas o ar seco não respeita divisa municipal.

A mesma massa de ar quente e seca cobre a região metropolitana e avança sobre boa parte do estado. No Triângulo, no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha, agosto já é estruturalmente mais quente e mais seco que na capital, e regiões que convivem com semiárido entram nesta janela partindo de uma situação hídrica pior.

Ou seja: quando o alerta de baixa umidade aparece com destaque para Belo Horizonte, há municípios mineiros enfrentando a mesma condição há semanas, sem o mesmo volume de cobertura. Vale acompanhar os avisos do Inmet pela sua região, e não pela manchete da capital.

O que uma capital faz com isso

Há uma diferença entre reagir a uma onda de calor e se preparar para uma estação que mudou de comportamento.

Reagir é emitir alerta, orientar a população e mandar bombeiro para o incêndio — tudo necessário, tudo em curso. Preparar-se é outra coisa: envolve arborização urbana em bairros com pouca cobertura vegetal, controle de lotes vagos antes da estiagem, ilhas de frescor em áreas com mais concreto que sombra e planejamento hídrico que considere agosto como mês quente, não como mês frio.

Belo Horizonte acaba de registrar o agosto mais quente em 65 anos. É um número que serve como manchete de um dia — ou como argumento para uma discussão que a cidade vai ter que fazer de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde.

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